O MATUTO VENDEDOR - Merlânio Maia
Vendo a seca esturricando
As paragens do Sertão
Jacinto Conceição Cruz
Tomou uma decisão
De ir pro Rio de Janeiro
Foi até o Juazeiro
Pedir “bença” a seu “padim”
Cícero Romão Batista
Vendeu o que deu na vista
E pegou a Itapemirim
Viajou dias e noites
Buscando a vida formosa
E se acordou na cidade
Chamada maravilhosa
Tanta gente o dia inteiro
Parecia um formigueiro
Jacinto meio arredio
Procurava sua irmã
Naquela quente manhã
Que já morava no Rio
Seu cunhado e sua irmã
Levaram ele pra casa
Com poucos dias depois
Jacinto criava asa
Sem descanso e sem sossego
Saiu em busca de emprego
Queria estar empregado
Até que tem uma chance
De ser vendedor free lance
Num imenso supermercado
Ali se vendia tudo
De agulha a avião
E Jacinto ali já sentia
Que era boa a ocasião,
Pois ouviu do seu gerente:
- Só emprego o mais competente
E este eu contrato na hora!
E o matuto foi gostando
Foi logo se aproveitando
Sem conversa e sem demora
Porém só tinha um problema,
Eram doze candidatos
Com currículo, experiência
Matriculados no trato
E ali dentro do recinto
Eles riam de Jacinto
Vindo do interior
Da Paraíba do Norte
Pra melhorar sua sorte
Tentando ser vendedor
Quando foi no fim do dia
Chegou ali o gerente
E disse: Faz trinta anos
Que eu trabalho com gente
Verei o que cada um
Fez fechou de venda comum
Vamos ver quem vai ficar
Como o nosso funcionário
Terá comissão, salário,
E até prêmio irá ganhar
Perguntou: - Quantos clientes?
Um disse seis, outro sete,
Outro quatro, outro cinco,
Outro doze, dezessete,
Jacinto disse: - Só um!
Foi aquele zumzumzum
Entre os outros candidatos
Coitado! Foram dizendo
Outros rindo e ofendendo
O sertanejo cordato
Pulou então o primeiro
Já vibrando por vender:
Três trenas, seis bicicletas,
E um gravador ABC
Os outros desconfiados
Com seus fracos resultados
Foram apagando a luz
Quando escutam o sertanejo
Com sua voz de solfejo
Jacinto Conceição Cruz
Cada um que criticasse
E dissesse algum gracejo
E Jacinto o nordestino
Disse num tom sertanejo:
- Conforme a lista do estoque
Vendi: um Jipe, um reboque,
Mais um barco de pescar,
Um jogo de vara fina,
Jogo de anzol Tramontina,
Bóia, fogão de acampar,
Lampião, faca de caça,
Barraca de acampamento,
Repelente de inseto,
Querosene e implemento,
Doze isca pra pescar,
Um isopor Madagascar,
E um estojo de talher,
Mais uma feira decente
Além de um absorvente
Do mais caro pra mulher
Todo mundo abriu a boca
E o chefe se levantou
Pegou a lista de estoque
E espantado falou:
- Mas eu nunca vi alguém
Que vendesse assim tão bem
Tanto produto agregado
Quero que todos aprendam
E até que um dia vendam
Como este nosso empregado
Você já está contratado
Mas me diga o que se deu
Foi difícil a maior venda
Que esta empresa já vendeu?
Jacinto disse: - O cliente
Veio atrás de absorvente
Eu disse assim: - Quem diria
Com a mulher nesse estado
Tá perdido o feriado
Que tal uma pescaria?!
Ele riu e concordou
Aí eu fui lhe mostrando
Os produtos que nós temos
E o cabôco foi comprando
E naquele disse que diz
Ele ficou tão feliz
Não desgrudava de mim
Da venda eu só dava o rumo
Ele foi pegando o prumo
Foi Facim, facim, facim!!!

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